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17 de Dezembro de 2000

A Ameaça Subterrânea das Minas em Angola

Para o rosto, um escudo à prova de fortes impactos, o colete blindado protege Bento do pescoço até os joelhos. Ele avança sozinho no campo minado. O detector de metais acusa o sinal de mina.

Na retaguarda, a 50 metros, Pascoal observa cada movimento do parceiro. Bento pode trabalhar, no máximo, meia hora. É o limite para não perder a concentração. O perigo é invisível, um descuido qualquer pode detonar a mina.

Nesse trabalho minucioso, palmo a palmo o sapador tenta romper o isolamento da cidade de Ambriz, no litoral norte de Angola. Em todo o país, aldeias estão cercadas por doze milhões de minas, uma por habitante: "Uma mina quando está para matar, não mata só um, podem morrer cinco ou seis pessoas", afirma um morador de Cuito.

As minas começaram a ser espalhadas em 62, no início da guerra pela independência. Hoje os campos continuam a ser minados tanto pelas tropas do governo quanto pelos rebeldes da Unita. Sem terra segura para plantar, os camponeses estão se deslocando em massa para as áreas urbanas, como Cuito. No caminho, crianças e adultos acabam pisando nos explosivos.

Na área do hospital do Cuito, onde fica a maioria das vítimas da guerra, estão as enfermarias que cuidam das pessoas mutiladas, principalmente por tiros e pelas minas. As enfermarias mostram que este ano a guerra ainda está mais violenta. Os civis são os que mais sofrem: são 150 mil pessoas mutiladas no país. De cada dez, oito não estavam em combate.

Todos os dias, o único cirurgião da província, doutor Wei, percorre a enfermaria para acompanhar cada paciente. Apenas num corredor da enfermaria encontram-se dez feridos de guerra, oito vítimas de explosivos. O caso mais recente é o do menino Jorge Zamatanga, de 12 anos. A família do garoto teve que andar um dia e meio para chegar até o hospital. Ele estava brincando quando uma mina explodiu...

Nas quatro principais províncias, os hospitais públicos só funcionam porque os médicos sem fronteiras garantem medicamentos, aparelhos e comida para quem está internado. O governo paga apenas o salário dos funcionários, menos de 40 reais por mês. "Nós não temos máquinas suficientes para todas as salas de cirurgia", conta a anestesista Inger Haus, explicando que por causa disso, é obrigado a tirar a pulsação dos pacientes manualmente, por exemplo.

As entidades humanitárias dizem que há interesses econômicos na guerra. Do lado do governo, o dinheiro do petróleo vai para a compra do armamento. A Unita de Jonas Savimbi já teria faturado oito bilhões de reais com o controle das áreas ricas em diamante, sem gastar um centavo com a proteção do povo. A maior prova do descaso com a população civil é a minagem dos campos. Só neste ano, foram quatrocentos e vinte e sete acidentes.

Na posição do guarda Pascoal, foram dois dias de varredura até o ponto onde eles fizeram mais uma descoberta: uma mina anti-tanque que ainda corre o risco de explodir. Ela pode explodir um blindado. Os estilhaços atingem um raio de cem metros. A mina está neste campo desde 93 e ainda poderia ficar ativa por mais trinta anos. A decisão da equipe é destruí-la com explosivos.

Quem sobrevive às minas procura sempre as cidades que recebem ajuda internacional. Formam acampamentos que abrigam mais de cem mil pessoas. Sem água, sem esgoto, sem energia. As casas são feitas de adobe e palha. Na estação das chuvas, o material molhado no campo não dá para construir. Quem chega é obrigado a ficar nas tendas coletivas à espera de um abrigo melhor em abril do ano que vem. Mais de cem pessoas ocupam o mesmo espaço e aguardam o registro para receber alimentos das Nações Unidas. "Eles sobrevivem do corte de lenha. Um montinho de lenha vale um kuanza. Para ferver um quilo de fubá, usam quatro montinhos", explica Custódio Albano.

A necessidade imediata daquelas pessoas é a comida. Mas o que elas mais querem é ver o lugar de onde vieram livre da guerra. "Só esperamos que haja paz para esta guerra acabar, para nossos filhos não sofrerem mais, como nossos avós, como nós sofremos", diz a enfermeira Alzira Lúcia. Liberar os campos minados por enquanto é um esforço que parece inútil. No ritmo de trabalho em que estão, as equipes demorariam seis mil anos para retirar todas as minas. Isso, se a guerra acabasse hoje.

Devolver campos produtivos aos camponeses é mais que profissão para o sapador Narciso. Cada mina descoberta é sinalizada com uma pequena estaca branca. Oitocentas foram desativadas neste ano. "Dizem que deve acabar com as minas e eles continuam fabricando. Pra quê? Pra matar pessoas", constata. Narciso tem 29 anos nasceu na guerra, que matou o pai numa emboscada. Narciso diz que nunca pensou que um dia iria trabalhar desativando minas, mas que se o faz, é para que o filho ou outras pessoas não tenham que morrer tão estupidamente...