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( Rede
Globo de Televisão)
10 de Dezembro
de 2000
Angola,
o pior país para se nascer no Mundo
As
crianças cantam à espera da comida. Elas são as maiores
vítimas da guerra suja que também mata de fome. Subnutrição,
doenças incuráveis. Epidemias que há 25 anos haviam
desaparecido do mundo estão de volta em todo e o país. Nas
áreas de emergência dos hospitais, doentes graves disputam
espaço com os feridos que chegam dos campos de combate. Colapso
na alimentação e na saúde. Duzentas pessoas morrem
por dia em Angola. E há quase três milhões de doentes
e famintos no país.
Um país que fala português, do tamanho do estado do Pará.
O mesmo mar, a mesma língua, mas massacrado por trinta e oito anos
de guerra. Primeiro, foi a luta pela independência de Portugal,
em 1975. A independência não trouxe a paz. A Unita -- União
Nacional pela Libertacao Total de Angola -- não aceitou o governo
eleito em 93 e mantém a guerrilha até hoje, sob o comando
de Jonas Savimbi.
Entidades humanitárias acusam o governo e guerrilha de usarem o
massacre de civis como uma perversa manobra de guerra: a Unita não
permite ajuda nem socorro aos feridos e o governo usa a multidão
de famintos como vitrine para conseguir ajuda internacional. "Nós
vimos a situação ficar cada vez pior e os dois lados estão
se protegendo, não estão dando nenhuma assistência
à população e nós somos obrigados a fazer
mais e mais. O governo está dizendo que está fazendo o máximo
para as pessoas. E nós estamos dizendo ok: provem, então".
A denúncia é do chefe da missão dos médicos
sem fronteiras, Christopher Estokes. Para a entidade, que está
há 17 anos em Angola, a disputa pela duas grandes armas da economia
- o diamante e o petróleo - é o que impede o fim da guerra.
A capital, Luanda, não vê os combates, mas sofre as conseqüências
da guerra. Falta comida porque os campos minados impedem o plantio em
todo o país. Nas ruas, os mutilados de guerra engrossam a multidão
de pedintes: 82% da população vivem sem emprego, em estado
de pobreza absoluta. "Estou há 13 anos sem emprego", revela um
desempregado.
Ferrovias destruídas e estradas interditadas pelas minas, isolam
a população do interior. Os médicos sem fronteiras
precisam do avião para levar medicamentos e prestar ajuda humanitária.
Genevieve e Gilas são médicos voluntários e sabem
que a viagem é perigosa. Dois aviões das nações
unidas- que traziam alimentos -- foram derrubados. Os pilotos são
obrigados a voar na altura máxima possível. Só quando
estão em cima da cidade, começam a descer em espiral, numa
manobra de alto risco.
Cuito perdeu um terço da população em apenas um combate,
mas ainda atrai multidões em fuga dos campos minados. Cento e vinte
mil pessoas estão acampadas em volta de uma cidade-ruína
sem comida e infra-estrutura para socorrer tanta gente. Para quem sempre
vive sob constante ameaça de tiros e bombas, nestes dias os combates
estão relativamente longe, a 50 quilômetros da área
urbana. Na cidade a guerra se tornou invisível. Os combates acontecem
à noite, de forma esporádica e sempre cruel.
Perto da meia noite, na cidade de Cuito, o único cirurgião
da província, dr. Wei, voluntário dos médicos sem
fronteiras, é chamado às pressas para mais uma emergência
no hospital. As enfermeiras já estão atendendo Verônica,
a menina de dois anos e meio, baleada pelas costas. O pai foi quem socorreu
a filha, depois da família ter sido atacada dentro de casa por
militares. O caso é grave. A bala de fuzil atravessou o pulmão,
destruiu o estômago e parte do fígado. Uma cirurgia delicada,
mesmo para dr Wei, que é pediatra na China.
Sem água, dr Wei tem que lavar as mãos com uma caneca. No
hospital semi-destruído pela guerra, faltam equipamentos básicos
para a cirurgia. Não há máquina para oxigenação.
O ar para manter Verônica viva depende das mãos do enfermeiro
Estevão. Enquanto a criança esta na sala da cirurgia, um
outro enfermeiro foi buscar em casa a mãe de Verônica, também
ferida no ataque. Mas foi recebido à bala. A ambulância chega
ao hospital cheia de marcas de tiros. O enfermeiro foi atingido na cabeça.
No centro cirúrgico, a equipe do dr Wei se reveza para tentar salvar
os dois feridos. Na alta madrugada, o médico informa que não
foi possível salvar o enfermeiro. Dr. Wei ainda luta para salvar
Verônica. "Ela está nas mãos de Deus", diz o Dr. Wei,
resignado. A menina não resistiu.
O ataque à família de Verônica mostra uma nova face
da guerra em Angola. Em vez de combates convencionais, agora são
ações de guerrilha contra civis, inclusive crianças.
Mas elas não morrem só com tiros. Doenças fatais,
que haviam desaparecido do mundo, estão de volta em Angola. As
epidemias provocadas pela fome são as que dão mais trabalho
nos hospitais.
Subnutrido, Adelino tem febre, icterícia, tosse seca e sente muitas
dores. "Aqui temos uma suspeita de tuberculose. Suspeita porque é
difícil fazer diagnóstico. Faltam recursos", revela um médico.
Cândido, de cinco anos, esta em coma há três dias.
É um caso de desidratação severa. "É difícil
recuperar quando tem todas essas doenças", lamenta o médico.
Por falta de espaço, as crianças dividem a cama. Antônio
é um dos casos mais graves da enfermaria. Tem quase dois anos e
ainda não anda. A pediatra dos médicos sem fronteiras, Mônica
Minardi, veio da Itália para cuidar das crianças de Angola.
Está revoltada com a falta de tudo. "Eu sei o que poderíamos
fazer na Itália, na Bélgica, isso é uma frustração
muito grande".
As mães, também subnutridas, ficam o tempo todo com os filhos.
Quando fica sabendo que ia perder o filho Joaquim, a mãe dele se
desespera. A única coisa que os médicos podem fazer é
enrolar um papel térmico para dar um pouco de conforto a Joaquim.
Uma morte atrás da outra. A doutora Mônica é chamada
às pressas a outra enfermaria, mas chega tarde. A família
do menino Benjamim Sachimelo, de 12 anos, já está levando
o corpo para casa. Como não há nenhum tipo de transporte,
todos vão a pé. No caminho, quem conhece a família,
segue atrás. Bartolomeu Silvestre, o tio do garoto, alerta: "É
muito triste. São coisas que poderiam desaparecer. Por isso alertamos
a comunidade internacional, para que a guerra acabe, para que haja saúde
e as crianças vivam em paz, para que isso não possa acontecer
várias vezes".
O cortejo entra no bairro de trabalhadores pobres. O pai de Benjamim é
funcionário público e ganha o equivalente a 20 reais por
mês para sustentar nove filhos. Em 38 anos de guerra, é a
quinta perda na família Sachimelo. Mas aqui ninguém parece
se conformar com mortes que poderiam ser facilmente evitadas.
De cada três crianças que nascem em Angola, uma morre antes
de completar cinco anos de idade, vítimas da violência da
guerra, das epidemias e principalmente da subnutrição. Por
isso, a prioridade nos acampamentos é o combate à fome.
Num dos maiores acampamentos dos deslocados de Cuito, vivem várias
crianças cujas famílias fugiram das aldeias ameaçadas
pela guerrilha. Tudo que comem vem do programa mundial de alimentos das
Nações Unidas.
As crianças com peso muito abaixo do normal são levadas
para o centro de nutrição dos médicos sem fronteiras
são quinze unidades em todo o país. A enfermeira Cristele
cuida dos casos mais urgentes. No começo, as crianças muito
fracas só devem receber gotas de alimentos. "Tem que ir devagar
porque senão a criança vomita. Tem que ter muita paciência
com criança desnutrida. Se a criança não consegue
tomar leite pela boca, tem que usar sonda", conta Cristele. É um
tratamento intensivo. Cada criança recebe no mínimo doze
refeições por dia. Quando saem do estado crítico,
passam para uma outra fase do tratamento. Continuam recebendo comida seis
vezes ao dia, durante duas semanas.
A encarregada desta unidade é enfermeira na Bélgica. Emanuele
está em sua primeira missão de guerra: "É difícil...
Já dura muito tempo, não sabemos se um dia vai ser melhor
para a população. É difícil encorajar as pessoas".
Nas duas semanas que o Fantástico esteve em Angola, nossos repórteres
foram testemunhas dos horrores da guerra. O mais cruel, no entanto, é
ver um país potencialmente rico, produtor de petróleo e
outras riquezas, com população na miséria e as crianças
morrendo de fome.
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Verônica,
de dois anos e meio, foi baleada pelas costas por um fuzil. O pulmão
foi perfurado, o estômago e parte do fígado foram destruídos.
Apesar dos esforços dos médicos, ela não resiste
e morre. É mais uma vítima da guerra insana em Angola...
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Quem
quiser ajudar os necessitados em Angola, deve entrar em contato com os
"médicos sem fonteiras", nos telefones:
Coord. Brasil - (021) 516-7381/ 233-1880, falar com Alessandra Villasboas.
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