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Mukanda da Minha Banda

Luís D´Angola Junior
Chefe de Redação da Muangolê Notícias

O Calvário da Obra na Tuga - III ( Penúltimo Capítulo )

Kota Minguito , durante a noite de discoteca, percebeu que a mboa não tinha nada na cabeça, so sabia falar de 10 em 10 minutos que o tio dela é general , que tinha parentes na África do Sul e nos States, conhecia de cor todas as discotecas de Luanda, os DJs mais famosos da banda , já curtiu com todos os mangas da Rádio Luanda no mussulo e andou com Bwé de bosses nas limousines alugada e nos luxuosos carros dos homens do poder em Angola. Mas o que deixou mais indignado Kota Minguito foi o fato de a moça no auge de sua ignorância e torpeza disse :

  • A banda esta fixé, muitas desbundas, quem dorme e não tira a parte dos santos passa fome. -

Ndengue Bwa cortou a seqüência de bobagens irritantes para Minguito, se aproximou e perguntou baixinho - Comê mô kota essa mboa já está no papo né? Você é strong! -

O Kota abanou a cabeça negativamente e falou bem na orelha do Ndengue Bwa - B B B, entendeu Puto! -

Era o código da batida ( BBB ) que significava a moça é bonita, bandida e burra. E ainda acrescentou - uma mulher que passa o dia no Roque Santeiro tem mais consciência da realidade Angolana que esta besta que vive na Europa e desconhece totalmente a triste situação do nosso pais - e no final o Kota indagou-se - so faltou me dizer que em Angola não existe guerra.

O pessoal bazou da discoteca um pouco cedo pois o Ndengue Bwa fraquinho fraquinho na chiba passou mal mais tarde com as misturas de bebidas e meio alterado começou a faltar respeito aos seus kotas e acusando alguns pulas na discoteca de racistas, colonizadores, exploradores de terras virgens.

Já no cúbico, domingo de manhã e refeito da desilusão de sábado , a saudade rotineira da banda distante rasgou o peito do Kota Minguito e as lagrimas rolaram nos olhos avermelhados se instalando nas grossas pestanas daquele rosto céptico com o futuro de seu país. Apôs receber duas ligações da banda de sua família, o kota trancou a cara e estava com um semblante preocupado e mal disposto. Primeiro recebeu o telefonema de sua esposa, reclamando de tudo, das promessas sem cumprir do Kota quando saiu da banda, da falta de dinheiro, da discussões de casa entre sogra e nora, mas o que deixou Kota Minguito irritado e com um sentimento de frustração de ser um pai ausente foi quando a mulher aos gritos falou:

  • Oh Mingo, " parece que você quer que eu vou dar o meu rabo na ilha para sustentar os seus filhos né ", porque você sabe que meu dinheiro do vencimento só chega para pagar a explicação das crianças e cozinhar o arroz doce todos os dias , o dinheiro que mandaste ja acabou então. -

Kota Minguito no outro lado da linha se conteu para não chorar, apertou o punho e deu soco no cadeirão, expulsando toda sua indignação pela situação de sobrevivência que sua família esta passando em Angola. Depois de sua esposa, vinte minutos depois ligou a sua mãe, falando das saudades do filho caçula dela ( o kota ), do nível de vida cada vez piorando no país, da guerra que nunca acaba, as coisas cada vez mais caras no mercado e no final a velha Joaquina resmungou:

  • Meu filho até o meu negoço ( negocio ) na kixima não anda, está tudo empatado filho, não sei se é mau olhado.-

Minguito diante dessa situação toda ficou inconformado, para ele não fazia sentido viver na Europa comendo o básico e sua família passando necessidades, descobriu então que o dinheiro que ele manda de três em três meses não é suficiente devido a inflação e a alta diária dos produtos na banda. Puxou o cigarro do bolso acendeu , na estante pegou meio copo de aguardente bebeu sorrateiramente fez cara feia e deitou-se de barriga para cima na cama , pôs as mãos tapando o rosto e desabafou gritando bem alto - filha da puta, que droga de vida porra, até quando, até quando meu deus!?????. Na sua cabeça passou mil e uma coisa, e várias indagações sobre a existência humana, o porque de tanto sofrimento se Jesus já morreu na cruz para nos salvar até duvidou se deus é pai ou é padrasto.

Minguito ainda estava tremulo de nervosismo quando chegaram seus kambas com os ingredientes todos do caldo para a cura da pelenguenha( continuação ) ou ressaca de ontem, o garrafão de vinho, o jindungo cahombo, o peixe grosso fresco, batata doce e mandioca, gengibre e a farinha de musseque vindo da banda so faltou um bidon de kimbombo para completar o cardápio.

O reparo foi feito pelo Zeca Grosso - Neste caldo so falta uma foiha de Kimbombo da Dona Ximinha - o pessoal todo caiu na gargalhada e o papo de bebidas não parou relembraram do efeito nos joelhos do maruvo, da apetitosa kissangua, do efeito devastador do capuca ou caporroto, da desastrosa vianinha, a cuca que pede bis, a nocal que apetece, o incontestável sabor da eka e dos inúmeros vinhos portugueses que já passaram pôr Angola sendo o mais famoso o catujal, etc,etc. Conversar com seus avilos ( em calão ) fazia bem ao kota, se distraia um pouco e não pensava muitos nas malambas e makas da banda. Enquanto o vinho exaltava os ânimos e puxava a conversa , o caldo quente tradição angolana trazia a tona as piadas , o rescaldo da disco de ontem, e como é de praxe , os assuntos da banda foram o que geraram mais polemicas e comentários: falaram sobre a guerra entre irmãos que nunca acaba em nome do povo; do pais destruído em nome da democracia, dos familiares vitimas da situação política no país; falaram das crianças sem escola e da educação que começa a ser elitizada; da corrupção generalizada onde uns lutam e outros enriquecem ; da prostituição ao ar livre na ilha; falaram da poeira em Angola que ja atingiu dois metros; do esbanjamento do luxo na miséria do povo dos dirigentes e dos senhores da guerra do país; relembraram a linda cidade do Huambo e a acolhedora Kuito - Bié e no final do papo falaram do sonho e desejo de ver Angola em paz e cada um voltar para sua casa.

Ndengue Bwa pegou no som e quis meter mais uns pop rom ( é so mijar e mete nojo ) quando o Kota Minguito interviu - Xé puto comê mete lá musica de gente, chega destas confusões - ele era conservador em termos musical e dizia que tirando o Paulo Flores, as Gingas e o Ndengue Maya Cool a nossa musica está comprometida, já não se faz musicas de raiz, a verdadeira musica angolana deixou de ser feita a partir da década de 80. Ndengue Bwa querendo mostrar os seus dotes de casseteiro no kota primeiro lançou os Muyohuenos da Lunda - Sul ( icola lamba ), depois Jacinto Tchipa ( não chores mais mamaezinha amanhã mesmo voltarei ), lentamente o Kota começou a voltar ao seu passado recente e sua expressão facial começou a mudar. Bwa nocauteou o Kota Minguito ao colocar David Zé ( o guerrilheiro ), ele perdeu o apetite e começou a lagrimar meio envergonhado, subitamente um filme passou na sua cabeça, os momentos difíceis que passou nas matas combatendo como militar e a morte de seu pai injusta e traiçoeiramente no 27 de Maio de 77 no fraccionismo que até hoje não tem explicação. Os kambas estranhando o súbito comportamento do Kota e perguntaram-lhe - Comê Kota estás a chorar?

  • Ele matreiramente respondeu soando - Esta picar, tá picar, este jindungo esta muito picante, acho que exagerei na dose. - Bela desculpa.

Um copo mais um copo, do vinho para cerveja, das gargalhadas aos insultos, da dança a reflexão , das ameaças e promessas de luta, o clima continuou numa boa e em família.

A Segunda feira chegou e o calvário da obra na tuga começou , acordar muito cedo, voltar tarde, fazer serviços em lugares perigosos, transportar coisas pesadas sobre o dorso, e sobretudo aturar o branco sem educação. Apesar das dificuldades o Kota Minguito atingiu a posição de encarregado de obra ( o alto posto na obra ) devido o seu espirito de liderança e a forma que enquadrava brancos e negros no trabalho e se vislumbrava uma nova vida para ele pois......

Não perca na próxima edição o final de o calvário da obra na tuga.

Leia os capítulos anterior para entender melhor a história

Capítulo - I
Capítulo - II

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