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Mukanda da Minha Banda

Luís D´Angola Junior
Chefe de Redação da Muangolê Notícias

O CALVÁRIO DA OBRA NA TUGA - I

Depois de ngundar pela segunda vez uma carta de chamada na embaixada portuguesa em Angola e passar meses de esfrega e desespero debaixo do sol tórrido e da poeira gostosa de Luanda ele chegou na terra tão sonhada. Era de manhã cedo em Portugal, como nunca tinha viajado, aproveitou para beber o gostoso vinho português e algumas Sagres no vôo da Tap, ele desceu meio tibado, com os olhos vermelhos e com frio. Desconfiou da escada rolante do aeroporto, preferiu as escadas de cimento e começou a preparou a garganta para falar o bom tuga perante as autoridades policiais portuguesas. Aproximou-se de um outro viajante angolano no aeroporto e perguntou:

  • Cumê parente, qual é a sanfona desses ouis, não vão dar bwê de dicas malaikes?
  • Ou estes pulas não intimidam ninguém, vão te fazer umas perguntam mailaques, mas se tiveres os docu todos, lhes avacalhas respondeu o outro já residente.

Então Kota Minguito arrumou o fato que comprou na Samirana e lá foi. meio desconfiado. Mandaram Ti Mingo ( apelido dado pela esposa) aguardar numa sala do aeroporto, onde somente havia negros ( até parece que apenas negros emigram e são suspeitas de portadores de droga ), para fazer toda a confirmação dos documentos. Revistaram e bagunçaram toda mala e até radiografia para ver se tem droga no estômago o fizeram. Kota Minguito fez cara feia,

  • Porra qual é desses parentes, será que vou voltar ou quê resmungou: se aquele muadie ngundou mal minha carta de chamada primeiro lhe estragar a cara e vai Ter que me devolver a massa toda.

Senhor Domingos Lutu-cuuu-ta Kiam-bata!

O oficial português chamava pelo Kota Minguito, soletrando seu nome bem tradicional

  • Soueu chefia respondeu ele.

O oficial olhou na fotografia e na cara do Kota vá lá pode passar patrício autorizou o oficial.

Kota Minguito conteu o sorriso, para reclamar:

cume chefia, estou aqui a 4 horas meu, feito parvo, so porque sou negro, vi ai muitos brancos a passar sem incomodarem, isso é racismo meu

o policial educamente sem jeito respondeu:

Eu apenas estou aqui desempenhando o meu trabalho -

Lá fora ou dentro já de Portugal, Man Liças mas conhecido pôr Padock, seu grande avilo dos tempos da tropa o esperava com uma garrafa de sagres de 1L para brindar a vinda do grande Kamba. Man Liças para alem de o hospedar em casa, já havia arranjado o Salo de ajudante na obra pois tinha o expediente todo das obras.

Os ponteiros do relógio ( tic tac tic tac )marcavam 5.30 min da manhã, e o muadié Minguito acordou bwê assustado e sem speed , quase que nem dormiu porque este dia era o primeiro que ia encarar a obra na tuga. Kota Minguito tinha chegado a uma semana na tuga vindo da banda, como muitos tantos outros que lá se encontram, melhorar um pouco de vida, pegar uma massa, e mandar uma arca frigorifica e um vídeo para mãe e alguns conteúdos para família de casa, era o anseio mais alto deste jovem senhor que era capitão do exercito em Luanda e nunca conseguiu pagar com o salário a renda de casa.

- Cumê Kota Minguito, tá na hora, arranja ai o trapo que voce acaha que não vais precisar aqui e toma ai um coxe de leite para ter o pulugunzo no mambo

Kota Minguito pegou a farda militar que trouxe ja bwe manjada das FAA e as botas do dia-dia da banda.

Xé puto, eu tomar leite estas a brincar ou quê, prepara aquele meio litro de tinto que sobrou ontem - . Virou rapidamente a meia garrafa de Dão-

Depois do toque do avilo, mostrou interesse firmeza e empolgação, e foi debaixo do chuveiro, pôr não haver aquecedor, a agua gelada caiu-lhe como um chicote nas costas, ele reclamou

  • Porra, esta merda esta fria meu

Apenas dois minutos no chuveiro ele saiu.

Antes de sair foi ao quarto, relembrar a suas fotografias da banda, da tropa e dos avilos sentados na barraca da tia Madó em altas tibas, e em casa com a esposa e os putos ( as saudades de casa já batiam ) , mais tarde escondeu no fundo da mala as patentes de capitão do exercito angolano. Era inverno, manhã escura, aquele vento frio e o ar gelado, arrancava palavras e expiração esfumegantes dos transeuntes, eram homens jovens, velhos, mulheres e até adolescentes , brancos, negros, mestiços, portugueses, europeus, africanos, e sul americanos que iam até a estação das Mercês pegar o comboio e depois a camioneta para chegar até a bule. No comboio Man Liças advertiu o kamba

comê voce como não tens passe, vais de quilande , mas fica atento com o pica parente -

Nessa hora Domingos Kiambata viajava em pensamentos e parou no tempo que era um pouco chefe na banda pôr ostentar as patentes de capitão, lhe chamavam de oficial Domingos, onde não havia frio e desprezando a formatura chegava as 10.00 h no quartel. Ao ver as mulheres e velhas na mesma camioneta, a caminho das bumbas, imaginou sua esposa a caminho do Roque Santeiro de manha cedo a procura do negocio para revender, e da sua Mãe cozinhando a quiteta para vender de manhã cedo na porta de casa.

  • Epa, parente chegamos , vamos sapar, o mambo já esta próximo avisou Man Liças.

O local da obra era longínquo, próximo de Cascais, dentro de umas serras profundas , num buraco de alguns metros de profundidade, quase que Kota Minguito pensava que estava a voltar para banda.

  • Chefe Queirós, este o moço que te dei aquela dica semana passada, é meu primo chegou a pouco e quer trabalhar com a malta .

O patrão de tanta convivência com os muangolês já conhece o palavreado apimentados com calão que o pessoal usa na obra.

voce é de Angola também? - perguntou o Patrão -

  • sim patrão!
  • tens quantos anos, não es menor não é. Eu não quero aqui fedelhos, para não Ter problemas com a policia, documentos não e´importante -
  • Não chefe, tenho 25 anos- Respondeu com respeito.
  • Voce é de 1975, Ah eu sai de Angola nesta época se calhar estavas a ser martelado caralho - Abusou o patrão.

O patrão era um gordo baixinho, com aquele bigode abespinhado, parece que não toma sopa, so não gostava de menores de idade porque a Policia multa alto se pegar alguem nesta situação, e não gostava de trabalhadores com documentos português pôr teria que arcar com encargos trabalhistas e teria muitos direitos pela legislação trabalhista portuguesa.

Devido o caralho , do patrão, Kota Minguito fez cara Feia, mas Man Liças o acalmou:

  • Comê parente não liga aqui na obra chamar caralho, porra, foda-se pôr um branco pra ti é normal, eles usam muito isso, não como ofensa mas é força do habito -.

O salo começou as 8.00 , e o patrão mandou fazer a massa, depois de já Ter carregado vários sacos de cimento nas costas e carregar bastante areia no carro de mão. Eram 10.00h da manhã e já estava arrebentado, quando ouviu a voz do branco gritando:

  • Oh Minguito faz massa pesada, rápido e traz aqui encima!.

Kota Minguito, não gostou:

- porra, já carreguei o cimento, areia, vou fazer massa mais -

Man Liças o alertou:

  • xé fala baixo, como é o teu primeiro dia , tens que mostrar serviço para o pula, se não o muadie te despede -.
  • Porra afinal o salo é esse aqui meu, isso é escravidão, isso não é vida, não sei como vocês agüentam decepcionou-se.

Kota Minguito, se salvou pôr 15 min, descansou um pouco, estava na hora da bucha. Tirou o tacho e tentou sentar para apreciar o pão com cerveja que trouxera de casa.

  • xé não senta, o branco não gosta ver ninguém sentado na hora da bucha, come de pé -.
  • Vamos lá caralho , vamos trabalhar, pra comer precisa uma hora pá, isto não é almoço gritou o patrão com cara feia.
  • E voce oooh Minguito, já fez a massa que te pedi cobrou o patrão.
  • já vai patrão- asseverou Kota Minguito.

Como Kota Minguito era o ajudante de mestre sem experiência e primeira vez que trabalhava na obra, fazia quase todo o trabalho pesado , e sujo na obra, tinha atender o mestre e não podia dar moleza, o pior é que tinha que fazer a massa pela primeira para o seu mestre.

  • Patrão como se faz massa pesada perguntou ao patrão.
  • Tu não sabes caralho, agora é que estou fodido resmungou e aditou
  • Mete dois baldes de cimento, três baldes de areia fina, três de areia branca , três de areia do rio, vamos lá despacha-te, mete a betoneira a trabalhar-

O caos é que Kota Domingos não sabia o que era areia fina, do rio, branca etc., etc, muito menos como fica massa pesada. Kota Minguito não sabia o que fazer e pensou seriamente em fugir da obra, porque afinal a imagem que tinha da obra não era aquele trabalho todo, parecia uma Segunda escravidão passiva...

Capítulo - II
Capítulo - III

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