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Política

Caetano Pinto Falcão
Editor Executivo da Muangolê Notícias

Vamos " Reinventar " Angola ( parte – I )

Apôs 25 anos de independência, os angolanos seguem ainda em busca da concretização do seu maior sonho " viver em um clima de paz e de liberdade ", um desejo que vem sendo perseguido a vários séculos.

O povo angolano sofre a mais de 500 anos as mais terríveis barbáries ( a escravidão, trabalhos forçados, a guerra incongruente, a espoliação dos seus bens, os desrespeitos com a sua cultura, etc.) Enfim , os angolanos tem sido ao longo deste período sistematicamente humilhados.

A 11 de novembro de 1975 o Dr. Antônio Agostinho Neto (foto) – presidente do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola ) proclamava a independência nacional em Luanda, a capital do país.

Importante notar que a proclamação da independência angolana se dá numa altura em que tropas da FNLA ( Frente Nacional de Libertação de Angola ) e mercenários zairenses cercam e bombardeiam a parte norte de Luanda, ao sul do país, o MPLA enfrentava o exercito sul – africano e a UNITA ( União Nacional para Independência Total de Angola ), os intentos deste conglomerado de forças é frustrado pelo MPLA com a assistência dos cubanos e da logística soviética, meses depois, o MPLA tinha capturado vastas porções do país anteriormente controlados pela FNLA e pela UNITA. Podemos com isso, constatar que a componente externa do processo político angolano é anterior a proclamação da independência nacional.

Enquanto o MPLA, proclamava em Luanda a " República Popular de Angola ", a UNITA de Jonas Savimbi e a FNLA de Holden Roberto, proclamavam na província do Huambo ( sul de Angola ) a " República Democrática de Angola ", e que vai Ter apenas um aspecto simbólico já que o MPLA ganha terreno e reconquista esta cidade obrigando a UNITA a se retirar primeiro para o Bié e mais tarde para a província do Cuando Cubango, onde funda o seu celebre bastião a Jamba e vai organizar o seu eficiente estilo de guerra – a guerrilha. A FNLA é praticamente destroçada e empurrada para o Zaire ( Congo Democrático ) onde mais tarde viria a perder força.

A independência nacional não é de imediato reconhecida pelos portugueses que só reconhecem o Governo de Angola, apenas em fevereiro de 1976, o que vai provocar tensas relações entre o Estado português e o Estado angolano.

O Brasil que ate então que vivia sob tutela de um regime militar é o primeiro país a reconhecer o Governo do MPLA , os americanos protestam e o governo brasileiro é obrigado a substituir o seu embaixador em Luanda, Ovídio de Mello.

Anos depois, o ex-secretário de Estado dos EUA - Henry Kissinger admite que os EUA erraram em Angola, Em seu livro "Anos de Renovação", Kissinger dedica um capítulo à crise ocorrida em 1976. Nela, os EUA tentaram impedir que o MPLA do médico e poeta Agostinho Neto assumisse o governo independente de Angola. Em um dos trechos, Kissinger escreve:

" Num ponto crucial da crise angolana, quando eu reclamei por que o Brasil reconhecera o MPLA (...), Silveira (chanceler brasileiro da época ) lembrou-me que o interesse nacional brasileiro estendia-se às possessões portuguesas na África. Era uma continuidade que nenhuma outra antiga colônia reivindicara. O Brasil se sentia livre para consultar seus interesses e sua história, até porque nós não o havíamos consultado nem informado a respeito de nossas intenções... Considerando como a coisa acabou, freqüentemente eu tenho me perguntado - inclusive ao escrever estas páginas - se devíamos ter tomado as iniciativas que tomamos. (...) Nosso erro básico não esteve na decisão de impedir que os comunistas tomassem Angola, mas no modo como executamos essa política."

O 11 de novembro de 1975, marca o inicio de uma nova era para os angolanos é o culminar de uma luta de resistência que varou séculos, onde milhares de angolanos perderam as suas vidas em busca da liberdade da sua pátria. Ao mesmo tempo que os angolanos livram-se dos colonizadores, abre-se uma nova etapa para que " nós os angolanos " possamos construir o nosso Estado, é o momento que nós (Quicongo, Quimbundo, Ovimbundos, Lunda-Quioco "Tchôkwe", Mbundo, Ganguela, Nhaneca-Humbe, Ambó, Herero e Xindonga ) nós os pretos, mestiços e brancos, nós " angolanos " vamos repensar no nosso projeto maior " a construção do Estado angolano ", na preservação da unidade, no desenvolvimento da consciência e de um ideal nacional compartilhado, ou seja, sair em busca de um objetivo comum para nossa pátria.

No caso de Angola a nação se vai formando antes da formação do estado e após o que não quer dizer que é a independência que vai construir os movimentos nativistas que começam lá atrás ( anos 50/60 ), e depois o projeto vamos construir Angola grande movimento cultural que vai nos fornecer elementos que ajudam a formar a consciência nacional. Mas não é o estado colonial que deu de imediato a formação desta consciência nacional, ela se está a formar ainda, por isso é que dissemos que identidade nacional se constrói ela não é dada, e ela deve permitir no caso de Angola essa diversidade, ela deve ser unitária. O projeto da nação é unidade, agora Angola é estado-nação é esta a unidade, nesta altura o estado já está formado mas a nação continua a se formar. E é dentro destes princípios que devemos fazer a leitura e pensar que a nação é a identificação de nós mesmos, levando em conta este aspecto da diversidade que achamos que não constitui mais problemas; há muito tempo falava-se me tribalismo, etnicismos que são apenas fatores de manipulação, continuam sendo e vão ser utilizados por muito tempo em qualquer parte do mundo. (*Carlos Serrano).

Quando um povo luta contra a opressão, o seu maior anseio é almejar a liberdade ( econômica, jurídica e política ) e isto , se dá quando se toma o " poder " , que nesta altura é um poder legitimo, porque Angola é dos angolanos e nada mais justo que nós os angolanos comandemos o nosso próprio destino. Estas teorias expressam as circunstâncias do tempo em que foram concebidas, só que em ação o MPLA vai no sentido oposto ao instaurar no país um sistema monopartidário, impondo um regime absolutista, passando a falsa impressão que instalará um governo popular e quem mandava no país era o povo.

O que ocorreu em Angola é que alcançado o poder, as classes dirigentes afastaram-se do povo para o qual haviam " lutado ", não existe um compromisso com a sociedade, no caso especifico do MPLA isto não vem a ser novidade, já que a bem ou mal o Movimento chega um pouco enfraquecido a quando da proclamação da independência Nacional, um pouco atras no inicio do anos 70, o MPLA sofre duas importantes rupturas, as revoltas Activa e a do Leste que são levadas a cabo por influentes quadros do partido que não concordavam pela maneira que o Presidente Neto, conduzia o MPLA, eles acusam Neto de autoritarismo e um homem que não gostava da democracia, ele era visto como uma espécie de ditador.

Pegando o gancho nestas duas revoltas, veremos que o MPLA sofre talvez com o seu maior golpe interno, em 27 de maio de 1977 ( menos de 2 anos após a proclamação da independência), o movimento fraccionista liderado por Nito Alves, que é considerado pela história recente do país como um dos maiores tabus do MPLA.

Continua no próximo número...

*Dr.Carlos Serrano, Professor de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É vice-diretor do Centro de Estudos Africanos da USP

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