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Artigo
publicado no Jornal " O Estado de São Paulo "
02 de outubro de 2000
Petróleo
pode ajudar Angola a se recuperar
Gigantescas
jazidas recém-descobertas trazem nova esperança
RACHEL SWARMS
The
New York Times
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COSTA DE AMBRIZ,
Angola (A bordo do "The Pride Angola") - A 1.600 metros sob as ondas
verde-esmeraldas jaz um dos mais "quentes" bens imóveis do mundo.
No próximo ano, Angola espera bombear 1 milhão de barris de petróleo
por dia do leito do oceano. Até 2010, equipamentos de extração,
como os que estão no Atlântico Sul, poderão exportar mais óleo cru
do que o Kuwait.
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Há 25 anos,
o primeiro governo negro de Angola sonhava poder controlar esta
energia para melhorar a vida de seu povo, desesperadamente pobre.
Mas se os deuses fizeram chover ouro em Angola, a riqueza foi em
grande parte consumida pelo governo e sua máquina de guerra, alimentando
o mais longo conflito civil do continente africano.
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Apesar disso,
Angola - um símbolo do pior tipo de subversão de riquezas naturais
- está agora à beira da mais nova oportunidade, Enquanto a guerra
civil está amainando e os preços do petróleo estão disparando, o
governo dá os passos preliminares para redirecionar sua vasta receita
proveniente do petróleo para a reconstrução deste país devastado.
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Num detalhado
acordo com o Fundo Monetário Internacional, divulgado no mês passado,
o governo prometeu aumentar quase três vezes os gastos em saúde
e educação e permitir que auditores independentes examinem seus
números relativos aos lucros do petróleo, que representam 90% da
receita de exportação e que anteriormente não eram plenamente divulgados.
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Ao que parece,
o governo espera conseguir acesso aos empréstimos a juros moderados
do Fundo e apagar sua imagem de corrupção inveterada que permitiu
que uma geração inteira crescesse quase sem saber o que é energia
elétrica ou água corrente ou casas sem buracos de balas...
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A história de
Angola está cheia de promessas não cumpridas e de oportunidades
desperdiçadas, e não se sabe se o presidente José Eduardo dos Santos
irá honrar os compromissos que assumiu. Mas esta mudança de atitude
do governo coincide com fortes indícios de que o público está também
cada vez mais inconformado por manter uma permanente miséria.
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Pela primeira
vez o povo angolano se ergueu aos milhares para protestar contra
a guerra sem fim, a corrupção e o desperdício da receita do petróleo
num país que é ao mesmo tempo o oitavo maior fornecedor de petróleo
para os Estados Unidos e uma das nações mais pobres do mundo.
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Em junho, na
maior onda de protestos, iniciada há oito meses, cerca de 6 mil
pessoas desfilaram pelas ruas esburacadas da capital, Luanda, até
um estádio para fazer um apelo pela paz. Na semana passada, dirigentes
católicos se reuniram na cidade provinciana de Uige para pressionar
o governo a respeitar os direitos humanos e iniciar um diálogo com
os rebeldes. São passos pequenos, mas significativos, para um povo
outrora temeroso de desafiar um governo que freqüentemente detém
e prende jornalistas e manifestantes que questionam a situação do
país. Mas basta fazer uma única visita às cidades angolanas em ruínas
para entender esse crescente descontentamento.
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Até agora, neste
ano em que o país celebra um quarto de século de independência de
Portugal, pelo menos oito pessoas morreram de fome na prisão porque
o governo não fornece alimentos suficientes , disse um jornal controlado
pelo Estado.
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Mais de um terço
das crianças internadas no melhor hospital pediátrico do país morre,
em parte porque recebe tratamento inadequado, segundo admite o relatório
anual do próprio hospital. E, embora a receita do petróleo tenha
aumentado nos últimos anos, o investimento do governo em saúde caiu
de 8% das despesas totais, em 1991, para 2,8% em 1999, segundo técnicos
do FMI.
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Por isso, não
causa surpresa que Angola, afetada por uma escassez crônica de alimentos,
de seringas e livros escolares, rotineiramente sofre também de falta
de otimismo. Apesar disso, a inusitada convergência de acontecimentos
recentes provocou alguns inesperados lampejos de otimismo. Nos últimos
quatro anos foi encontrado mais petróleo em Angola do que em qualquer
outro país do mundo e as companhias petrolíferas deverão oferecer
milhões apenas para espiar por baixo das ondas do mar. As empresas
começaram a apresentar freneticamente suas propostas para obter
o direito de explorar a mais recente faixa submarina aberta pelo
governo. E nestes dias, alguns ousam sonhar que este óleo generoso
- que aumentou os lucros de companhias americanas como a Chevron
e a Texaco, ajudou Luanda a comprar tanques e fuzis AK-47 do governo
americano e a encher os bolsos de funcionários do governo - poderá
algum dia acabar ajudando os pobres.
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