Resenha da palestra proferida pelo Professor Doutor Ladislau D
owbor no seminário "Angola 24 anos depois, o sonho de uma nação continua..." realizado pela AEA - SP. Associação dos Estudantes Angolanos no Estado de São Paulo. ÁFRICA NO CONTEXTO DA ECONOMIA GLOBALIZADAAo ouvir a palestra do professor Ladislau Dowbor, emérito professor da Pós-graduação da Faculdade de Economia da PUC - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, fiquei com a nítida impressão de que os passos necessários para a inserção de África e particularmente de Angola no seio da economia globalizada, ainda não começaram a ser dados. Seu pronunciamento leva-nos a uma reflexão que remota aos anos da descolonização, altura em que os países africanos conquistaram a independência, cujos desafios que se impunham não foram transpostos, e ainda muitos deles nem sequer começaram a ser atacados.
Sua experiência pela África, como asilado político em Angola e na Argélia nos anos setenta e posteriormente como consultor na Guiné Bissau, nos revela os desafios que teremos que enfrentar para tornar nossos países um local melhor para se viver; é o desafio de repensar sempre as coisas, distanciando-se das polarizações políticas à que estamos sujeitos e que acabam influenciando na maneira de pensar, para que se possa fazer juízos de valores mais adequados. È um desafio que cabe a todos, principalmente aos que têm oportunidade de assimilar conhecimento novo, idéias novas, aqui ou em qualquer lugar, e passa-las em diante.
Sobre as elites
Um dos desafios é repensar sobre a elitização como fator de governabilidade, cancro mortal que se abateu sobre as classes dirigentes, como ela se apresenta e sua forma de perpetuar o poder à custa da submissão e empobrecimento da população.
Ao assumirem o poder, as classes dirigentes dos movimentos de libertação, legitimados ou não internamente pela população, distanciaram-se do propósito inicial de sua luta, que era a busca de uma sociedade livre, justa e independente para seus povos, e partiram para a elitização das relações como forma de tornarem-se importantes e manter um certo grau de influência sobre seus comandados. Isto era tão visível em certos países africanos recém independentes, que forças ainda lúcidas tentaram evitar esse comportamento pernicioso, porém foram suplantadas pela força da hegemonia elitista.
Catapultadas num ambiente de bipolarização política mundial, socialismo ou capitalismo, rapidamente estas classes dirigentes perderam o rumo e passaram a representar interesses de conveniência política externa em detrimento dos interesses nacionais.
Não se formaram classes dirigentes voltadas para o povo, com um sentimento nacional supremo. Foram classes dirigentes voltadas para seu próprio umbigo, cujo objetivo era o enriquecimento ilícito desmedido, em detrimento de seus povos que padeciam de fome, doenças e miséria. Aquilo que se observou durante a colonização, em que algumas "elites de autrora" vendiam seus próprios irmãos como escravos aos europeus em troca de benesses recebidos, participando e enriquecendo-se deste processo, hoje repete-se de uma forma disfarçada, sendo monopolizadora da intermediação dos interesses externos em seus países, e não dos interesses nacionais. Essa monopolização é assegurada, ou porque dominam o acesso as fontes de exportação da riqueza, ou porque monopolizam as fontes de financiamento externo concedidos pelos organismos internacionais para proveito pessoal ou de grupo. Sua alavanca de poder passou a ser a externa e não a interna, ao preservar os interesses externos. Nenhum regime que se isola do povo consegue manter-se no poder por muito tempo, como nos ensina a história. Para se manterem no poder passaram a usar a lei da força. Esse sistema acabou deformando a formação econômica da África.
Alguns grandes lideres africanos que buscaram um enraizamento interno profundo com seus povos e não apenas intermediar o interesse externo, foram sumariamente liquidados. A defesa dos interesses internos foi varrida porque o interesse bipolar externo (socialismo ou capitalismo) prevaleceu e liquidou a capacidade de os países trilharem seus próprios caminhos. Perdeu-se o momento histórico da mudança que o processo da descolonização oferece junto com a independência.
Em suma tanto o oriente como o ocidente passaram a apoiar-se em tipos de elite que pregavam seus discursos e suas práticas, o que na verdade era uma forma de impedir qualquer enraizamento popular dos governos.
A problemática dos direitos humanos é outro desafio que se coloca. A vida humana é algo sagrado que deve ser respeitado para que se possa no mínimo nivelar as relações humanas.
Sobre a globalização
Para Dowbor, a globalização se mostra como uma oportunidade e uma ameaça. Ela coloca milhares de pessoas para a pobreza, cerca de 2/3 da população mundial segundo relatório do Banco Mundial de 1991, mas ela busca novas formas de solidariedade e articulações entre países e recoloca na discussão o discurso de autrora de vários países da OUA numa perspectiva nova, e que pode até utilizar o discurso da necessidade de espaços econômicos de livre comercio para construir espaços de articulações novos. As mudanças ocorridas na África do Sul, o fim do perigo vermelho e a cessação do apoio ocidental aos grupos guerrilheiros desestabilizadores e a evolução dos acontecimentos em Angola, projetam um cenário de tranquilidade na região austral.
O grande ponto de interrogação será como Angola se insere neste mundo globalizado, se sozinha, se em parceria com outros países, se em bloco. E o desafio novo é atentar para as necessidades locais de seus povos, como saúde, educação, cultura, bem estar social e outros, em que a participação das camadas beneficiárias se faça sentir na elaboração dos projetos, na execução das ações de modo a promover a ação certa no local certo consoante os desígnios da população. É uma forma de desarticular a política colocando lado a lado os atores reais, executores e beneficiários. Desta forma rompe-se com o isolacionismo do estado e articula-se o triângulo mobilizador da mudança entre a sociedade civil, estado e as empresas privadas. São os novos rumos que se desenham na nova era da globalização. È uma ação participativa da sociedade na busca de soluções para os seus problemas.
Enquanto a globalização avança, o conceito de nação como instituição identidade, de valores culturais, valorativos se dilui pela rapidez com que se processam as transformações econômicas, mas o estado se reforça, porque é preciso um estado forte e atuante para regular e manter a autoridade. Um exemplo concreto é o caso da União Européia. Se a nação muda, que riscos e oportunidades surgem. A reformulação permite a reconstrução de espaços locais, as tradições culturais e revalorização da diferença sem que isso desarticule o espaço.
Outro aspecto focado por Dowbor, refere-se ao conhecimento, que com a advento de novas tecnologias tornou-se um fluxo, e cada vez mais se percebe que a dominação hoje se faz muito mais pela cultura (a televisão, a mensagem, a forma como se veste, a mídia) do que pela economia.
A tecnologia se revela também como um elemento de dominação e libertação. Cabe a nós, países do terceiro mundo inverter o sinal de modo a torna-la adequada aos interesses nacionais.
Os desafios do social
O social virou a nova bandeira econômica. Nos países desenvolvidos, os setores sociais como saúde, educação e cultura representam cerca de 40% do PIB, suplantando tradicionais setores como a indústria e armamento.
É em torno do social que África precisa se unir, que deve ser uma oportunidade de criar um novo elo econômico de reconstruir relações sociais e reconstruir as comunidades.
O desafio de partir para coisas novas, de olhar para as tecnologias e que oportunidades ela nos oferece e seus perigos, o que esta acontecendo com a globalização, com os espaços do governo, com as nações, e trilhar caminhos novos alternativos e viáveis e não tentar fazer com séculos de atraso o que a Europa e a EUA fizeram a muito tempo.
O grande avanço que a humanidade precisa hoje, não é um tiro mais rápido, um carro chique; o grande avanço é um sistema de organização política que numa cidadezinha determinada permite que não haja uma criança sem sapato, sem saúde e sem comida.
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